segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Suicídio

"Realmente, apenas uma ocasião como essa para me fazer escrever tão bem assim."

Era, de fato, um belo bilhete. Não deixava qualquer dúvida sobre os culpados de sua morte, e tampouco sobre aqueles que o fizeram pensar algumas vezes antes de tomar a decisão de se jogar da ponte. E ainda o fazia de forma relativamente poética.


Nada poética era a forma como se despederia do mundo. Jogar-se da ponte? Há um suicídio mais popular do que esse? Mas seu tio havia se matado da mesma forma, então achou que, de uma maneira um tanto torta, honraria a tradição familiar.

Madrugada. Era hora. Levantou-se silenciosamente da cama, para não acordar a esposa; desviou-se com habilidade dos brinquedos barulhentos espalhados pela casa, como se tivesse treinado o percurso por semanas. O bilhete! Quase se esquecera de posicioná-lo como planejara. Pronto, tudo estava certo agora.

Pegou seu carro, e pensou em coisas triviais até alcançar um trecho da ponte que julgou apropriado. Saltou, e com uma tranquilidade assustadora, posicionou-se de pé na mureta que servia de proteção contra quedas no rio. Congelado, nessa época do ano. Estava a um movimento de um músculo de não ter mais como voltar atrás, e então, só quando encarou o gelo lá embaixo, tremeu.

E chorou. Copiosamente. Deu-se conta que a única parte sua que se chocaria com a imensidão pálida lá embaixo seria a sua lágrima. Sua covardia, assim definiu, era absurdamente maior que seu desespero.

Desceu da mureta, e voltou ao carro. Pôs Pink Floyd no rádio.

Tão silenciosamente quanto saiu de sua casa, entrou nela. Rasgou o bilhete, e depois o queimou. Obviamente, não teve sono algum, porém fingiu estar dormindo ao ver sua mulher acordando. Esperou ela acordá-lo, vestiu seu terno, e foi trabalhar.

Nunca mais acordou de madrugada. Nunca mais escreveu um bilhete.

Morreu de velhice.

Sua esposa diz ter ouvido um sussurro fraco, quase imperceptível, no seu leito de morte. Não entendera direito. Algo sobre querer voltar no tempo, para uma madrugada. Achou ter ouvido a palavra "ponte", e "arrependimento".

"Certamente, delirava", ela concluiu, por fim.

7 comentários:

  1. AAH, primeira a comentar, morram :D
    Eu gostei muuuito, muito desse, é um dos meus preferidos, hm.

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  2. silvia comentando qualquer coisa só pra ser a primeira, AEHUAHEAE
    brinks brinks K3
    nunca vi um post de suicidio tão limds *-* /emocionada

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  3. "blá blá blá, Nícholas, VOCÊ NUNCA COMENTA, BLÁ"
    Estou comentando, tá irado mané =P

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  4. "tá irado, mané"


    HAHAHAHAH, realmente...

    E eu nem peço comentário, só peço pra não apagar o que comenta, IUAHSA

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Por isso que não se deve olhar pra baixo e tal.. EHAOIEAH

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