Eu estava numa festa. Ou num play.
Ou em qualquer lugar.
Meus melhores amigos estavam lá. E minhas melhores amigas também.
Ela se desculpava. Cada fio de cabelo se desculpava. Loiro, moreno, ruivo, azul. Todos eles se desculpavam.
Por ter posto o meu melhor amigo contra mim. Por ter feito tudo ficar confuso. E ele, o melhor amigo, entendia.
Desculpando-se ou não, quem se importa? Ele entendia.
Entendia que não deveria ter jogado fora o que existia. A confiança. A certeza. Um no outro.
Entendia que elas sempre estiveram lá, e que ele não deveria tê-las ignorado.
Ela...ela sorria. Na noite passada, ela sonhou que alguém a amava. E ela sabe como a sorte - a má sorte - de um homem bom pode torná-lo vil. E eu, eu, não o melhor amigo, mas eu; eu acenava com a cabeça, sinalizando que sabia. Sabia como ela tinha sofrido. Sabia como ela não merecia tudo aquilo. Como a vida, como Deus, como todos, tinham sido injustos com ela.
E por fim, ele. O apaixonado. O solitário. O espelho momentâneo do que eu me tornei permanentemente. Ele olhava pra mim à distância; aproximava-se lentamente. Estendia a mão. Olhava pra mim. E chorava.
E eu chorava mais. Muito mais. Compulsivamente.
E acendíamos um cigarro juntos. Com a areia sob nossos pés. Como costumávamos.
E eu enxergo tudo isso. Os quatro. E nada mais importa. Eu fico em paz. Depois de tanto tempo, tanto tempo...nada mais me perturba. E me embriago de felicidade.
Aquela felicidade pura que esqueci que existia. Que tive certeza que nunca mais sentiria.
Aquela que não é acompanhada de um porém. De uma lembrança amarga. De um lembrete eterno sobre como tudo tinha dado errado.
Daí eu acordo.
E noto que sonhei. Noto que nada mudou. Levanto.
Olho-me no espelho. Quem sou eu?
Por quê?
Será que algum dia...?
Abaixo a cabeça. Apoio-me na pia, e permaneço imóvel. Penso no passado, no presente e no futuro numa fração de segundos.
Sou interrompido por qualquer coisa. Lavo o meu rosto, e saio do banheiro.
Artificialmente pronto pra viver mais um dia artificial. Fingindo que sou feliz.
E assim como no dia anterior, e no dia antes desse, não faço nada pra mudar o que sinto. Convenço-me que não sei o que fazer. Que não há nada a se fazer.
Abraço uma conformidade estúpida, que assume uma impotencialidade irremediável, mas ainda assim sonha com dias melhores. Sonho com o passado.
E por fim, assim como no sonho, me imagino reunido com todos eles.