quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Coração

Escrevo esse texto do além. Se, ao fazê-lo, ouço as harpas dos anjos ou o estalar de chamas, não revelarei, afinal não quero que vocês suponham antes da hora o tom desse texto; amargurado ou agradecido.





Segurei o papel numa mão. Com a outra, girei a chave do carro.

Inacreditável. Então quer dizer que o meu coração iria simplesmente se recusar a bombear sangue para os meus tão saudáveis órgãos? Ele realmente pararia de bater, em poucos dias, por aqueles que eu tanto amava?

O papel não expressava nem ao menos a comoção que meu médico certamente sentiu ao escrever meu diagnóstico - carregava a indiferença da letra impressa.

Essa frieza era o aspecto mais angustiante da situação. O céu estava azul como ontem, e o menino ainda jogava limões pro alto na esperança de uns trocados. A sua indiferença me enojou de tal forma, que minha vontade era atropelá-lo. Mas se até o meu médico, meu conhecido há tanto tempo, teria coragem de atender outros pacientes naquele mesmo dia, o que eu esperava que o menino fizesse?

Acabei dando dinheiro pra ele.

Duas quadras me separavam de casa. Melhor se fossem vinte, porque até aquele momento não tinha juntado nenhuma coragem pra contar que iria morrer tão em breve. Minha mãe provavelmente morreria antes de mim ao saber; minha esposa, possivelmente secaria, com tantas lágrimas derramadas. Admito, sem qualquer vergonha: se esboçassem outra reação, senão as que esperava, me ofenderiam profundamente.

Porém, de qualquer forma, vê-las sofrendo seria terrível. E desnecessário. Afinal, já era um homem morto, não era? Anunciar tal fato apenas prolongaria o sofrimento daqueles que me rodeiam. Estava decidido: levaria o resto da minha vida escondendo a triste queda do meu coração. Ele cairia em silêncio, por um bem maior.

Sei que essa decisão durou menos de uma quadra porque já havia concluído, ao ver o velho desfiladeiro, que seria uma existência sofrível demais padecer por mais algumas semanas. Talvez ele tenha me inspirado a decidir que o melhor a ser feito seria acabar com aquilo ali mesmo, naquela tarde. Assim, nunca saberiam da minha doença. Esperava que o documento que carregava, o qual especificava claramente que eu não autorizava a doação dos meus órgãos, mantivesse o meu coração intocado. Ele entraria pra história sem que o culpassem de minha morte. Uma tremenda injustiça, pois o desgraçado era, de fato, o culpado por tudo.

Mas não foi o sentimento de impunidade cardíaca que me fez pisar tão bruscamente no freio a centímetros do abismo; a responsável por isso foi a óbvia constatação de que o meu médico contaria a todos da minha condição. Eu seria imortalizado como um covarde suicida, e isso era inaceitável.

Fiz então o que qualquer um faria.

Dei meia-volta. Retornei à clínica. Disse ao meu médico que significaria demais para mim, se ele pudesse ir comigo até minha casa, e dividir a árdua tarefa de comunicar a uma esposa que ela ficaria viúva. A uma mãe, que ela perderia seu único filho.

Chorei, acho. Tinha que ser convincente.

E foi. Ele veio. Entrou no carro. Fingi que os inúteis consolos dele me atigiam de alguma forma.

O freio já cortado. O papel já queimado. A decisão já tomada.

Desculpei-me antes de atirar o meu carro no vazio. E diria até que morri rindo, porque a expressão no rosto dele, ao ver o chão se aproximando, era uma mistura hilária e indescritível de horror, surpresa e negação.

E nenhum de nós dois soube, ao menos em vida, que no outro canto da cidade um velho doente possuía um exame de um coração saudável. Do meu coração.

Aparentemente, alguém havia pego o dele.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Suicídio

"Realmente, apenas uma ocasião como essa para me fazer escrever tão bem assim."

Era, de fato, um belo bilhete. Não deixava qualquer dúvida sobre os culpados de sua morte, e tampouco sobre aqueles que o fizeram pensar algumas vezes antes de tomar a decisão de se jogar da ponte. E ainda o fazia de forma relativamente poética.


Nada poética era a forma como se despederia do mundo. Jogar-se da ponte? Há um suicídio mais popular do que esse? Mas seu tio havia se matado da mesma forma, então achou que, de uma maneira um tanto torta, honraria a tradição familiar.

Madrugada. Era hora. Levantou-se silenciosamente da cama, para não acordar a esposa; desviou-se com habilidade dos brinquedos barulhentos espalhados pela casa, como se tivesse treinado o percurso por semanas. O bilhete! Quase se esquecera de posicioná-lo como planejara. Pronto, tudo estava certo agora.

Pegou seu carro, e pensou em coisas triviais até alcançar um trecho da ponte que julgou apropriado. Saltou, e com uma tranquilidade assustadora, posicionou-se de pé na mureta que servia de proteção contra quedas no rio. Congelado, nessa época do ano. Estava a um movimento de um músculo de não ter mais como voltar atrás, e então, só quando encarou o gelo lá embaixo, tremeu.

E chorou. Copiosamente. Deu-se conta que a única parte sua que se chocaria com a imensidão pálida lá embaixo seria a sua lágrima. Sua covardia, assim definiu, era absurdamente maior que seu desespero.

Desceu da mureta, e voltou ao carro. Pôs Pink Floyd no rádio.

Tão silenciosamente quanto saiu de sua casa, entrou nela. Rasgou o bilhete, e depois o queimou. Obviamente, não teve sono algum, porém fingiu estar dormindo ao ver sua mulher acordando. Esperou ela acordá-lo, vestiu seu terno, e foi trabalhar.

Nunca mais acordou de madrugada. Nunca mais escreveu um bilhete.

Morreu de velhice.

Sua esposa diz ter ouvido um sussurro fraco, quase imperceptível, no seu leito de morte. Não entendera direito. Algo sobre querer voltar no tempo, para uma madrugada. Achou ter ouvido a palavra "ponte", e "arrependimento".

"Certamente, delirava", ela concluiu, por fim.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Poesia

Ninguém podia medir o tamanho do desespero do poeta. Logo, ninguém pode julgá-lo.

Afinal, por Deus, o que de tão cruel ele poderia ter feito para merecer tão pesado castigo? Qual pecado abominával ele teria cometido que justificasse seu triste destino?


Acordara, sentara em sua cadeira, olhara para o céu, para si, para o papel, pegara o lápis. Contudo, não escrevera. Simplesmente não conseguia escrever um poema sequer. Apenas prosas. Lindas prosas, inclusive. Porém, lindas prosas para ele possuiam o mesmo valor de um saco de lixo perfumado; a real beleza das palavras se escondia única e exclusivamente no meio dos versos de uma poema, no meio de suas estrofes tão carinhosamente estruturadas e planejadas. E certamente não existia uma única pessoa que o conhecesse que ousasse contrariá-lo, tamanho era o amor e a raiva com os quais defendia sua bandeira.


Então, qual seria a razão disso ter acontecido justamente com ele?


Pensou, pensou, e pensou. Sua esperança era de que, se soubesse o motivo de tal maldição, talvez pudesse revertê-la.

Passaram-se horas. Dias. Cada segundo sem um resposta aumentava sua aflição. Não comia, não bebia, sequer lembrava-se de tais futilidades. Não aguentava mais; algo tinha que ser feito. Qualquer medida drástica, àquela altura, seria, claro, compreensível. Nenhuma dor que ele já experimentara chegava aos pés do que ele estava sentido. E por tanto tempo...Já se convencera de que seu relógio não funcionava mais.

"Meu sofrimento se arrasta há semanas, como ele tem coragem de dizer que estou assim há apenas dois dias?"

Por fim, decidira-se. E, salvo um anjo, vindo dos céus, com um pacote contendo seu dom roubado, não havia nada, nem ninguém, que pudesse detê-lo. Qualquer consequência de seus atos não se compararia a magnitude da perda da habilidade mais sagrada do poeta.

Andou até a praça, com uma austeridade que escondia com incrível eficácia sua dor. Sabia, pela música que se propagava até sua casa, que era Domingo. Se era o primeiro Domingo, ou o décimo, desde a fatídica manhã, pouco importava. E, se era Domingo, então a feira de poesia deveria estar acontecendo, tradicionalmente. Sentou-se na última fileira. Ninguém o notou.

Enquanto ouvia outros poetas recitando seus poemas, racionalizou seu desprezo a arte alheia. "Se não posso mais escrever poemas, muito menos uns bons, é provável que também não possa mais reconhecê-los." Portanto, convenceu-se que o vencedor carregava em seu coração a chave que abriria as portas da magia da escrita para o poeta novamente. E então, seguiu-o até sua casa.

Esperou que dormisse. Não podia arriscar qualquer reação adversa, qualquer risco de erro. Afinal, a alternativa para um fracasso seria impensável. Insuportável.

A vila era extremamente pacata, de tal forma que todos dormiam de janelas abertas. Entrou com extrema cautela. A faca já em punho.

Dirigiu-se lentamente à cama de quem lhe causava tanta inveja. A necessidade de êxito transformou seu corte num movimento tão preciso, que o pobre vencedor da feira só perceberia que sua garganta estava cortada quando atravessasse os portões do Paraíso.

Precisava ser rápido - o corpo frio não lhe teria valor algum. Calculou que não havia tempo de voltar a sua casa, e achou que também pudesse ser perigoso. Então, com a mesma faca do crime, cortou o peito de sua vítima. Cortou até que pudesse distinguir um coração. Pôs sua mão nele; para sua alegria, ainda estava quente. E com um voracidade bestial, devorou-o por completo.

Voltou para sua casa, levando em sua boca ensanguentada a sua última esperança. Dormiu como uma criança.

Os raios de sol em seus olhos o acordaram. Ele levantou-se, e como no dia em que a loucura o dominou, sentou em sua cadeira, olhou para o céu, para si, para o papel, e pegou o seu lápis. E escreveu o mais belo poema que ele já escrevera. Seus olhos cintilavam felicidade.

Levou seu lindíssimo poema para a feira no domingo seguinte. Sabia que ganharia. E ganhou, naturalmente. Todos o aplaudiram. Por um momento, esqueceram o luto, e agradeceram a Deus por ter lhes dado um novo grande poeta.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Memórias...

"Juliana, sabe aquela garota que parece Julia? Ela me deu oi de novo...".

"Que garota?".

"Aquela que eu te falei que eu não fazia ideia de quem era, na frente do banco, outro dia...".

"Ah tá".

"Será que conheço ela de algum lugar e não lembro?".

"Deve ser, cara...".

Passam-se alguns segundos.

"Não olhem agora, mas ela está vindo na nossa direção."

Alguém diz:

"Quem é ela, cara?"

"Não faço a mínima ideia. Estou começando a ficar assustado, haha"

Nesse momento, ela passa. Não estava sozinha; era acompanhada por 2 ou 3 amigos.

Pensei que ela fosse dizer algo. Como não disse, supus que, pelo menos naquele dia, ela não falaria mais comigo. Acho que essa suposição não chegou a durar 100 metros.

"Oi!".

Daqueles mais simpáticos e sorridentes que há.

Estávamos na frente do Mc Donald's, e finalmente, ela falara comigo enquanto estava parado, não me dando escolha senão me dirigir a ela. Rapidamente, constatei que era uma garota bonita; cabelos relativamente claros e ondulados, óculos de grau, pele bem branquinha, e o detalhe que certamente se destacou mais aos meus olhos à primeira vista: belíssimos olhos azuis.

"Desculpa, eu não sei se você me conhece, mas eu realmente não faço ideia de quem você seja..."

"Não, fica tranquilo, eu também não te conheço. Só falei com você porque te vi na rua e achei que você fosse um cara legal!"

Fiquei completamente sem graça. O que se fala depois de algo assim?

"Ah...valeu...você deu sorte, eu realmente sou um cara legal".

Realmente, um péssimo comentário. Acho que ela riu.

"Hum...quer chocolate?".

"Ah,eu aceito...".

Não sei se ficou evidente pra ela que eu estava me sentindo bastante desconfortável. Para minha sorte, uma garota que estava lá comigo transbordava uma enorme vontade de conhecê-los; Krishna, seu nome. O resto do meu grupo permaneceu calado quase que o tempo inteiro. A Krishna parecia ser, dentre todos, inclusive a tal a garota de olhos azuis, a mais confortável com a situação. Contudo, a desconhecida transmitia uma segurança de quem não estava tão constrangida quanto um cenário como aquele sugeria. Era de se esperar; é necessário uma quantidade considerável de coragem para abordar completos desconhecidos tão cordialmente.


Após alguns pedaços de chocolate, MSNs foram trocados. Ideia, claro, de Krishna. Sinceramente, me recordo muito vagamente de quem acompanhava a menina. Praticamente não abriram a boca. Como já disse, 2 ou 3 rapazes. Nos despedimos com a promessa de adicionarmos uns aos outros no MSN.

Descobri, não lembro se naquela conversa ou mais tarde, que o nome da garota era Sílvia.

Fui embora pensando nela. Mais precisamente, tentando compreendê-la. "Por que ela havia falado comigo? Como assim,eu tenho cara de ser legal? Isso não faz o menor sentido...".

Não cheguei nem a considerar a possibilidade de virarmos grandes amigos. Nem dela, e muito menos de qualquer um dos seus amigos.

E esse texto é a prova viva de como eu nunca estive tão errado.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Rotina

Ele chegou do trabalho. Cansado, naturalmente.

Ela cumprimentou-o. Fria? Não por maldade, certamente.

Eles jantaram. Nada é dito. Não há nada a ser dito.

Ele foi ver televisão. Pouco importa o cardápio.

Ela foi ler algo. Lembrava-se vagamente do que havia lido ontem.

Eles foram para a cama. Claro, sempre naquele horário.

Ele não dormiu. Tampouco ficou acordado. Letárgico, talvez.

Ela teve um pesadelo. De novo. O mesmo.

Eles levantaram. Absortos. Em nada.

Ele foi trabalhar. Indiferente.

Ela ficou em casa. Indiferente.

Não sei se pensaram um no outro.

Ele chegou do trabalho.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Alguém sabe quem ele era?

O sujeito estava andando por aí, distraído, preso em seus pensamentos, completamente alheio ao que acontecia a sua volta.

Andava pra frente por hábito, afinal não fazia ideia de onde estava indo. Talvez seu plano fosse andar até seus pés sangrarem.

Ninguém sabia. Ninguém ligava. Era apenas um cara andando na rua. Se ele está indo pra casa encontrar sua família, ou então se dirigindo à ponte mais próxima com a intenção de aplacar alguma culpa que esteja remoendo-o por dentro, pouco importa, realmente.

Escurecera. Será que ele havia percebido?

É provável que não. Porque se tivesse notado, certamente pararia de andar. Se recolheria em qualquer lugar; todos sabem que não se deve andar sozinho na rua aquela hora. Ao menos, não naquela rua.

É possível que essa fosse a verdadeira intenção dele. Estar ali, naquele momento. De qualquer jeito, o que fosse possível descobrir sobre o que passava dentro da cabeça dele, não é mais. A resposta havia morrido junto com ele.

A resposta? Será que alguém havia perguntado?

sábado, 6 de novembro de 2010

Precisão Randômica, Louco Diamante

Pense na sua vida. Pense em decisões importantes que você tomou, ou então que foram tomadas por você, que acabaram te trazendo aonde você está agora. Se concentre em uma delas, se concentre em alguma esquina em que você resolveu virar à direita, e não à esquerda. E finalmente, apenas imagine: E se você tivesse virado à esquerda?



Se você conseguir, assim como eu, se assustar com as variáveis, e se admirar com a aleatoriedade nem tão aleatória da vida, me avise, por favor, só para eu saber que eu não jogo o meu tempo no lixo pensando nisso. Ou então, ao menos, que eu não sou o único a fazer isso. E digo que não é tão aleatório assim, porque há de existir algum propósito no meio de tanto caos. Imaginar o caos absoluto é quase desesperador. E porque, por mais que a consequência de um ato seu pareça ser muito clara, ela pode ser diferente.

Mas você não deve acreditar nisso. Deve acreditar que, se você roubar um carro, baterá num poste e será preso,e só. Se resolver juntar dinheiro e ir morar sozinho, vai sofrer e voltar correndo pra casa. E se, por qualquer motivo que seja, decidir falar com pessoas estranhas na rua, será apenas algo constrangedor, que nunca evoluirá pra algo positivo, afinal não terá afinidade alguma com elas. Mas, não sei, tente enxergar que também pode acontecer algo de diferente. Pense que você pode, quem sabe, pensar de um jeito bem parecido com o daquela pessoa que você resolveu abordar, muito mais do que com a maioria daquelas que você é compelido a conversar quase que diariamente. E aí, pode ser que, talvez, virem grandes amigos.

Isso não é simplesmente fantástico?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Será que alguém realmente lerá isso?

Enfim, mesmo sendo um pouco averso à diários, e tendo a impressão, como o título denuncia, de que esse blog é quase isso, escrevo pela pura vontade de fazê-lo, e pela pura preguiça de usar o próprio punho e um folha de papel para tal.

Pronto, tá aí um péssimo primeiro post, capaz de desanimar qualquer corajoso que não tenha desistido ao ler o nome desse blog.