Escrevo esse texto do além. Se, ao fazê-lo, ouço as harpas dos anjos ou o estalar de chamas, não revelarei, afinal não quero que vocês suponham antes da hora o tom desse texto; amargurado ou agradecido.
Segurei o papel numa mão. Com a outra, girei a chave do carro.
Inacreditável. Então quer dizer que o meu coração iria simplesmente se recusar a bombear sangue para os meus tão saudáveis órgãos? Ele realmente pararia de bater, em poucos dias, por aqueles que eu tanto amava?
O papel não expressava nem ao menos a comoção que meu médico certamente sentiu ao escrever meu diagnóstico - carregava a indiferença da letra impressa.
Essa frieza era o aspecto mais angustiante da situação. O céu estava azul como ontem, e o menino ainda jogava limões pro alto na esperança de uns trocados. A sua indiferença me enojou de tal forma, que minha vontade era atropelá-lo. Mas se até o meu médico, meu conhecido há tanto tempo, teria coragem de atender outros pacientes naquele mesmo dia, o que eu esperava que o menino fizesse?
Acabei dando dinheiro pra ele.
Duas quadras me separavam de casa. Melhor se fossem vinte, porque até aquele momento não tinha juntado nenhuma coragem pra contar que iria morrer tão em breve. Minha mãe provavelmente morreria antes de mim ao saber; minha esposa, possivelmente secaria, com tantas lágrimas derramadas. Admito, sem qualquer vergonha: se esboçassem outra reação, senão as que esperava, me ofenderiam profundamente.
Porém, de qualquer forma, vê-las sofrendo seria terrível. E desnecessário. Afinal, já era um homem morto, não era? Anunciar tal fato apenas prolongaria o sofrimento daqueles que me rodeiam. Estava decidido: levaria o resto da minha vida escondendo a triste queda do meu coração. Ele cairia em silêncio, por um bem maior.
Sei que essa decisão durou menos de uma quadra porque já havia concluído, ao ver o velho desfiladeiro, que seria uma existência sofrível demais padecer por mais algumas semanas. Talvez ele tenha me inspirado a decidir que o melhor a ser feito seria acabar com aquilo ali mesmo, naquela tarde. Assim, nunca saberiam da minha doença. Esperava que o documento que carregava, o qual especificava claramente que eu não autorizava a doação dos meus órgãos, mantivesse o meu coração intocado. Ele entraria pra história sem que o culpassem de minha morte. Uma tremenda injustiça, pois o desgraçado era, de fato, o culpado por tudo.
Mas não foi o sentimento de impunidade cardíaca que me fez pisar tão bruscamente no freio a centímetros do abismo; a responsável por isso foi a óbvia constatação de que o meu médico contaria a todos da minha condição. Eu seria imortalizado como um covarde suicida, e isso era inaceitável.
Fiz então o que qualquer um faria.
Dei meia-volta. Retornei à clínica. Disse ao meu médico que significaria demais para mim, se ele pudesse ir comigo até minha casa, e dividir a árdua tarefa de comunicar a uma esposa que ela ficaria viúva. A uma mãe, que ela perderia seu único filho.
Chorei, acho. Tinha que ser convincente.
E foi. Ele veio. Entrou no carro. Fingi que os inúteis consolos dele me atigiam de alguma forma.
O freio já cortado. O papel já queimado. A decisão já tomada.
Desculpei-me antes de atirar o meu carro no vazio. E diria até que morri rindo, porque a expressão no rosto dele, ao ver o chão se aproximando, era uma mistura hilária e indescritível de horror, surpresa e negação.
E nenhum de nós dois soube, ao menos em vida, que no outro canto da cidade um velho doente possuía um exame de um coração saudável. Do meu coração.
Aparentemente, alguém havia pego o dele.