Um forte abraço aos leitores letões que, segundo o mapinha do meu blog, em algum momento e por algum motivo - ok, darei um palpite ousado agora: provavelmente, por acidente -, já o visitaram.
Eu, inclusive, num esforço para manter a minha popularidade nesse simpático país do leste europeu, fiz uma profunda pesquisa e aprendi a dizer "eu te amo" na língua letã:
Es mīlu tevi!
Caso o google tradutor tenha me traído, e essa não seja a tradução correta, por favor, alertem-me nos comentários, para que eu possa demonstrar todo o carinho e apreço que sinto por vocês da forma apropriada.
Tchau.
Incrivelmente sem ideias
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Livros.
Qual é o maior sintoma de que alguém perdeu a faísca na mente, na alma, que a fazia ser feliz sem motivo e triste só com razão?
Qual é o indício mais evidente de que alguém não mais sonha, não mais ingenuamente distorce a realidade pra que ela nunca o fira ? Magoe-o?
Acho que é quando ele para de escrever o que sente - porque é tanta coisa, que se não sai pela boca, se não sai pelo choro, se não sai pelo beijo, tem que sair pelo lápis. Pelo teclado.
Tinha.
Acho que é quando ele para de ler o que não sente - porque quer sentir também o que o autor sentiu.
Queria
É quando ele só lê cardápios, notícias, anúncios, informes, circulares, relatórios e documentos.
É quando só escreve documentos, relatórios, circulares, informes, anúncios, notícias e cardápios.
E assim, ele morre. Desiste. Convence-se que foi forçado a desistir.
Mas não foi.
Comprei um livro. Espero conseguir lê-lo até o fim.
Qual é o indício mais evidente de que alguém não mais sonha, não mais ingenuamente distorce a realidade pra que ela nunca o fira ? Magoe-o?
Acho que é quando ele para de escrever o que sente - porque é tanta coisa, que se não sai pela boca, se não sai pelo choro, se não sai pelo beijo, tem que sair pelo lápis. Pelo teclado.
Tinha.
Acho que é quando ele para de ler o que não sente - porque quer sentir também o que o autor sentiu.
Queria
É quando ele só lê cardápios, notícias, anúncios, informes, circulares, relatórios e documentos.
É quando só escreve documentos, relatórios, circulares, informes, anúncios, notícias e cardápios.
E assim, ele morre. Desiste. Convence-se que foi forçado a desistir.
Mas não foi.
Comprei um livro. Espero conseguir lê-lo até o fim.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Poem For My 43rd Birthday
To end up alone
In a tomb of a room
In a tomb of a room
Without cigarettes
Or wine -
Just a lightbulb
And a potbelly,
Grayhaired,
And glad to have the room.
...in the morning
They're out there
Making money;
Judges, carpenters,
Plumbers, doctors,
Newsboys, policemen,
Barbers, carwashers,
Dentists, florists,
Waitresses, cooks,
Cabdrivers...
And you turn over
To your left side
To get the sun on your back
And out of your eyes.
Charles Bukowski.
Or wine -
Just a lightbulb
And a potbelly,
Grayhaired,
And glad to have the room.
...in the morning
They're out there
Making money;
Judges, carpenters,
Plumbers, doctors,
Newsboys, policemen,
Barbers, carwashers,
Dentists, florists,
Waitresses, cooks,
Cabdrivers...
And you turn over
To your left side
To get the sun on your back
And out of your eyes.
Charles Bukowski.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
Miragem
Eu estava numa festa. Ou num play.
Ou em qualquer lugar.
Meus melhores amigos estavam lá. E minhas melhores amigas também.
Ela se desculpava. Cada fio de cabelo se desculpava. Loiro, moreno, ruivo, azul. Todos eles se desculpavam.
Por ter posto o meu melhor amigo contra mim. Por ter feito tudo ficar confuso. E ele, o melhor amigo, entendia.
Desculpando-se ou não, quem se importa? Ele entendia.
Entendia que não deveria ter jogado fora o que existia. A confiança. A certeza. Um no outro.
Entendia que elas sempre estiveram lá, e que ele não deveria tê-las ignorado.
Ela...ela sorria. Na noite passada, ela sonhou que alguém a amava. E ela sabe como a sorte - a má sorte - de um homem bom pode torná-lo vil. E eu, eu, não o melhor amigo, mas eu; eu acenava com a cabeça, sinalizando que sabia. Sabia como ela tinha sofrido. Sabia como ela não merecia tudo aquilo. Como a vida, como Deus, como todos, tinham sido injustos com ela.
E por fim, ele. O apaixonado. O solitário. O espelho momentâneo do que eu me tornei permanentemente. Ele olhava pra mim à distância; aproximava-se lentamente. Estendia a mão. Olhava pra mim. E chorava.
E eu chorava mais. Muito mais. Compulsivamente.
E acendíamos um cigarro juntos. Com a areia sob nossos pés. Como costumávamos.
E eu enxergo tudo isso. Os quatro. E nada mais importa. Eu fico em paz. Depois de tanto tempo, tanto tempo...nada mais me perturba. E me embriago de felicidade.
Aquela felicidade pura que esqueci que existia. Que tive certeza que nunca mais sentiria.
Aquela que não é acompanhada de um porém. De uma lembrança amarga. De um lembrete eterno sobre como tudo tinha dado errado.
Daí eu acordo.
E noto que sonhei. Noto que nada mudou. Levanto.
Olho-me no espelho. Quem sou eu?
Por quê?
Será que algum dia...?
Abaixo a cabeça. Apoio-me na pia, e permaneço imóvel. Penso no passado, no presente e no futuro numa fração de segundos.
Sou interrompido por qualquer coisa. Lavo o meu rosto, e saio do banheiro.
Artificialmente pronto pra viver mais um dia artificial. Fingindo que sou feliz.
E assim como no dia anterior, e no dia antes desse, não faço nada pra mudar o que sinto. Convenço-me que não sei o que fazer. Que não há nada a se fazer.
Abraço uma conformidade estúpida, que assume uma impotencialidade irremediável, mas ainda assim sonha com dias melhores. Sonho com o passado.
E por fim, assim como no sonho, me imagino reunido com todos eles.
Ou em qualquer lugar.
Meus melhores amigos estavam lá. E minhas melhores amigas também.
Ela se desculpava. Cada fio de cabelo se desculpava. Loiro, moreno, ruivo, azul. Todos eles se desculpavam.
Por ter posto o meu melhor amigo contra mim. Por ter feito tudo ficar confuso. E ele, o melhor amigo, entendia.
Desculpando-se ou não, quem se importa? Ele entendia.
Entendia que não deveria ter jogado fora o que existia. A confiança. A certeza. Um no outro.
Entendia que elas sempre estiveram lá, e que ele não deveria tê-las ignorado.
Ela...ela sorria. Na noite passada, ela sonhou que alguém a amava. E ela sabe como a sorte - a má sorte - de um homem bom pode torná-lo vil. E eu, eu, não o melhor amigo, mas eu; eu acenava com a cabeça, sinalizando que sabia. Sabia como ela tinha sofrido. Sabia como ela não merecia tudo aquilo. Como a vida, como Deus, como todos, tinham sido injustos com ela.
E por fim, ele. O apaixonado. O solitário. O espelho momentâneo do que eu me tornei permanentemente. Ele olhava pra mim à distância; aproximava-se lentamente. Estendia a mão. Olhava pra mim. E chorava.
E eu chorava mais. Muito mais. Compulsivamente.
E acendíamos um cigarro juntos. Com a areia sob nossos pés. Como costumávamos.
E eu enxergo tudo isso. Os quatro. E nada mais importa. Eu fico em paz. Depois de tanto tempo, tanto tempo...nada mais me perturba. E me embriago de felicidade.
Aquela felicidade pura que esqueci que existia. Que tive certeza que nunca mais sentiria.
Aquela que não é acompanhada de um porém. De uma lembrança amarga. De um lembrete eterno sobre como tudo tinha dado errado.
Daí eu acordo.
E noto que sonhei. Noto que nada mudou. Levanto.
Olho-me no espelho. Quem sou eu?
Por quê?
Será que algum dia...?
Abaixo a cabeça. Apoio-me na pia, e permaneço imóvel. Penso no passado, no presente e no futuro numa fração de segundos.
Sou interrompido por qualquer coisa. Lavo o meu rosto, e saio do banheiro.
Artificialmente pronto pra viver mais um dia artificial. Fingindo que sou feliz.
E assim como no dia anterior, e no dia antes desse, não faço nada pra mudar o que sinto. Convenço-me que não sei o que fazer. Que não há nada a se fazer.
Abraço uma conformidade estúpida, que assume uma impotencialidade irremediável, mas ainda assim sonha com dias melhores. Sonho com o passado.
E por fim, assim como no sonho, me imagino reunido com todos eles.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Coração
Escrevo esse texto do além. Se, ao fazê-lo, ouço as harpas dos anjos ou o estalar de chamas, não revelarei, afinal não quero que vocês suponham antes da hora o tom desse texto; amargurado ou agradecido.
Segurei o papel numa mão. Com a outra, girei a chave do carro.
Inacreditável. Então quer dizer que o meu coração iria simplesmente se recusar a bombear sangue para os meus tão saudáveis órgãos? Ele realmente pararia de bater, em poucos dias, por aqueles que eu tanto amava?
O papel não expressava nem ao menos a comoção que meu médico certamente sentiu ao escrever meu diagnóstico - carregava a indiferença da letra impressa.
Essa frieza era o aspecto mais angustiante da situação. O céu estava azul como ontem, e o menino ainda jogava limões pro alto na esperança de uns trocados. A sua indiferença me enojou de tal forma, que minha vontade era atropelá-lo. Mas se até o meu médico, meu conhecido há tanto tempo, teria coragem de atender outros pacientes naquele mesmo dia, o que eu esperava que o menino fizesse?
Acabei dando dinheiro pra ele.
Duas quadras me separavam de casa. Melhor se fossem vinte, porque até aquele momento não tinha juntado nenhuma coragem pra contar que iria morrer tão em breve. Minha mãe provavelmente morreria antes de mim ao saber; minha esposa, possivelmente secaria, com tantas lágrimas derramadas. Admito, sem qualquer vergonha: se esboçassem outra reação, senão as que esperava, me ofenderiam profundamente.
Porém, de qualquer forma, vê-las sofrendo seria terrível. E desnecessário. Afinal, já era um homem morto, não era? Anunciar tal fato apenas prolongaria o sofrimento daqueles que me rodeiam. Estava decidido: levaria o resto da minha vida escondendo a triste queda do meu coração. Ele cairia em silêncio, por um bem maior.
Sei que essa decisão durou menos de uma quadra porque já havia concluído, ao ver o velho desfiladeiro, que seria uma existência sofrível demais padecer por mais algumas semanas. Talvez ele tenha me inspirado a decidir que o melhor a ser feito seria acabar com aquilo ali mesmo, naquela tarde. Assim, nunca saberiam da minha doença. Esperava que o documento que carregava, o qual especificava claramente que eu não autorizava a doação dos meus órgãos, mantivesse o meu coração intocado. Ele entraria pra história sem que o culpassem de minha morte. Uma tremenda injustiça, pois o desgraçado era, de fato, o culpado por tudo.
Mas não foi o sentimento de impunidade cardíaca que me fez pisar tão bruscamente no freio a centímetros do abismo; a responsável por isso foi a óbvia constatação de que o meu médico contaria a todos da minha condição. Eu seria imortalizado como um covarde suicida, e isso era inaceitável.
Fiz então o que qualquer um faria.
Dei meia-volta. Retornei à clínica. Disse ao meu médico que significaria demais para mim, se ele pudesse ir comigo até minha casa, e dividir a árdua tarefa de comunicar a uma esposa que ela ficaria viúva. A uma mãe, que ela perderia seu único filho.
Chorei, acho. Tinha que ser convincente.
E foi. Ele veio. Entrou no carro. Fingi que os inúteis consolos dele me atigiam de alguma forma.
O freio já cortado. O papel já queimado. A decisão já tomada.
Desculpei-me antes de atirar o meu carro no vazio. E diria até que morri rindo, porque a expressão no rosto dele, ao ver o chão se aproximando, era uma mistura hilária e indescritível de horror, surpresa e negação.
E nenhum de nós dois soube, ao menos em vida, que no outro canto da cidade um velho doente possuía um exame de um coração saudável. Do meu coração.
Aparentemente, alguém havia pego o dele.
Segurei o papel numa mão. Com a outra, girei a chave do carro.
Inacreditável. Então quer dizer que o meu coração iria simplesmente se recusar a bombear sangue para os meus tão saudáveis órgãos? Ele realmente pararia de bater, em poucos dias, por aqueles que eu tanto amava?
O papel não expressava nem ao menos a comoção que meu médico certamente sentiu ao escrever meu diagnóstico - carregava a indiferença da letra impressa.
Essa frieza era o aspecto mais angustiante da situação. O céu estava azul como ontem, e o menino ainda jogava limões pro alto na esperança de uns trocados. A sua indiferença me enojou de tal forma, que minha vontade era atropelá-lo. Mas se até o meu médico, meu conhecido há tanto tempo, teria coragem de atender outros pacientes naquele mesmo dia, o que eu esperava que o menino fizesse?
Acabei dando dinheiro pra ele.
Duas quadras me separavam de casa. Melhor se fossem vinte, porque até aquele momento não tinha juntado nenhuma coragem pra contar que iria morrer tão em breve. Minha mãe provavelmente morreria antes de mim ao saber; minha esposa, possivelmente secaria, com tantas lágrimas derramadas. Admito, sem qualquer vergonha: se esboçassem outra reação, senão as que esperava, me ofenderiam profundamente.
Porém, de qualquer forma, vê-las sofrendo seria terrível. E desnecessário. Afinal, já era um homem morto, não era? Anunciar tal fato apenas prolongaria o sofrimento daqueles que me rodeiam. Estava decidido: levaria o resto da minha vida escondendo a triste queda do meu coração. Ele cairia em silêncio, por um bem maior.
Sei que essa decisão durou menos de uma quadra porque já havia concluído, ao ver o velho desfiladeiro, que seria uma existência sofrível demais padecer por mais algumas semanas. Talvez ele tenha me inspirado a decidir que o melhor a ser feito seria acabar com aquilo ali mesmo, naquela tarde. Assim, nunca saberiam da minha doença. Esperava que o documento que carregava, o qual especificava claramente que eu não autorizava a doação dos meus órgãos, mantivesse o meu coração intocado. Ele entraria pra história sem que o culpassem de minha morte. Uma tremenda injustiça, pois o desgraçado era, de fato, o culpado por tudo.
Mas não foi o sentimento de impunidade cardíaca que me fez pisar tão bruscamente no freio a centímetros do abismo; a responsável por isso foi a óbvia constatação de que o meu médico contaria a todos da minha condição. Eu seria imortalizado como um covarde suicida, e isso era inaceitável.
Fiz então o que qualquer um faria.
Dei meia-volta. Retornei à clínica. Disse ao meu médico que significaria demais para mim, se ele pudesse ir comigo até minha casa, e dividir a árdua tarefa de comunicar a uma esposa que ela ficaria viúva. A uma mãe, que ela perderia seu único filho.
Chorei, acho. Tinha que ser convincente.
E foi. Ele veio. Entrou no carro. Fingi que os inúteis consolos dele me atigiam de alguma forma.
O freio já cortado. O papel já queimado. A decisão já tomada.
Desculpei-me antes de atirar o meu carro no vazio. E diria até que morri rindo, porque a expressão no rosto dele, ao ver o chão se aproximando, era uma mistura hilária e indescritível de horror, surpresa e negação.
E nenhum de nós dois soube, ao menos em vida, que no outro canto da cidade um velho doente possuía um exame de um coração saudável. Do meu coração.
Aparentemente, alguém havia pego o dele.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Suicídio
"Realmente, apenas uma ocasião como essa para me fazer escrever tão bem assim."
Era, de fato, um belo bilhete. Não deixava qualquer dúvida sobre os culpados de sua morte, e tampouco sobre aqueles que o fizeram pensar algumas vezes antes de tomar a decisão de se jogar da ponte. E ainda o fazia de forma relativamente poética.
Nada poética era a forma como se despederia do mundo. Jogar-se da ponte? Há um suicídio mais popular do que esse? Mas seu tio havia se matado da mesma forma, então achou que, de uma maneira um tanto torta, honraria a tradição familiar.
Madrugada. Era hora. Levantou-se silenciosamente da cama, para não acordar a esposa; desviou-se com habilidade dos brinquedos barulhentos espalhados pela casa, como se tivesse treinado o percurso por semanas. O bilhete! Quase se esquecera de posicioná-lo como planejara. Pronto, tudo estava certo agora.
Pegou seu carro, e pensou em coisas triviais até alcançar um trecho da ponte que julgou apropriado. Saltou, e com uma tranquilidade assustadora, posicionou-se de pé na mureta que servia de proteção contra quedas no rio. Congelado, nessa época do ano. Estava a um movimento de um músculo de não ter mais como voltar atrás, e então, só quando encarou o gelo lá embaixo, tremeu.
E chorou. Copiosamente. Deu-se conta que a única parte sua que se chocaria com a imensidão pálida lá embaixo seria a sua lágrima. Sua covardia, assim definiu, era absurdamente maior que seu desespero.
Desceu da mureta, e voltou ao carro. Pôs Pink Floyd no rádio.
Tão silenciosamente quanto saiu de sua casa, entrou nela. Rasgou o bilhete, e depois o queimou. Obviamente, não teve sono algum, porém fingiu estar dormindo ao ver sua mulher acordando. Esperou ela acordá-lo, vestiu seu terno, e foi trabalhar.
Nunca mais acordou de madrugada. Nunca mais escreveu um bilhete.
Morreu de velhice.
Sua esposa diz ter ouvido um sussurro fraco, quase imperceptível, no seu leito de morte. Não entendera direito. Algo sobre querer voltar no tempo, para uma madrugada. Achou ter ouvido a palavra "ponte", e "arrependimento".
"Certamente, delirava", ela concluiu, por fim.
Era, de fato, um belo bilhete. Não deixava qualquer dúvida sobre os culpados de sua morte, e tampouco sobre aqueles que o fizeram pensar algumas vezes antes de tomar a decisão de se jogar da ponte. E ainda o fazia de forma relativamente poética.
Nada poética era a forma como se despederia do mundo. Jogar-se da ponte? Há um suicídio mais popular do que esse? Mas seu tio havia se matado da mesma forma, então achou que, de uma maneira um tanto torta, honraria a tradição familiar.
Madrugada. Era hora. Levantou-se silenciosamente da cama, para não acordar a esposa; desviou-se com habilidade dos brinquedos barulhentos espalhados pela casa, como se tivesse treinado o percurso por semanas. O bilhete! Quase se esquecera de posicioná-lo como planejara. Pronto, tudo estava certo agora.
Pegou seu carro, e pensou em coisas triviais até alcançar um trecho da ponte que julgou apropriado. Saltou, e com uma tranquilidade assustadora, posicionou-se de pé na mureta que servia de proteção contra quedas no rio. Congelado, nessa época do ano. Estava a um movimento de um músculo de não ter mais como voltar atrás, e então, só quando encarou o gelo lá embaixo, tremeu.
E chorou. Copiosamente. Deu-se conta que a única parte sua que se chocaria com a imensidão pálida lá embaixo seria a sua lágrima. Sua covardia, assim definiu, era absurdamente maior que seu desespero.
Desceu da mureta, e voltou ao carro. Pôs Pink Floyd no rádio.
Tão silenciosamente quanto saiu de sua casa, entrou nela. Rasgou o bilhete, e depois o queimou. Obviamente, não teve sono algum, porém fingiu estar dormindo ao ver sua mulher acordando. Esperou ela acordá-lo, vestiu seu terno, e foi trabalhar.
Nunca mais acordou de madrugada. Nunca mais escreveu um bilhete.
Morreu de velhice.
Sua esposa diz ter ouvido um sussurro fraco, quase imperceptível, no seu leito de morte. Não entendera direito. Algo sobre querer voltar no tempo, para uma madrugada. Achou ter ouvido a palavra "ponte", e "arrependimento".
"Certamente, delirava", ela concluiu, por fim.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Poesia
Ninguém podia medir o tamanho do desespero do poeta. Logo, ninguém pode julgá-lo.
Afinal, por Deus, o que de tão cruel ele poderia ter feito para merecer tão pesado castigo? Qual pecado abominával ele teria cometido que justificasse seu triste destino?
Acordara, sentara em sua cadeira, olhara para o céu, para si, para o papel, pegara o lápis. Contudo, não escrevera. Simplesmente não conseguia escrever um poema sequer. Apenas prosas. Lindas prosas, inclusive. Porém, lindas prosas para ele possuiam o mesmo valor de um saco de lixo perfumado; a real beleza das palavras se escondia única e exclusivamente no meio dos versos de uma poema, no meio de suas estrofes tão carinhosamente estruturadas e planejadas. E certamente não existia uma única pessoa que o conhecesse que ousasse contrariá-lo, tamanho era o amor e a raiva com os quais defendia sua bandeira.
Então, qual seria a razão disso ter acontecido justamente com ele?
Pensou, pensou, e pensou. Sua esperança era de que, se soubesse o motivo de tal maldição, talvez pudesse revertê-la.
Passaram-se horas. Dias. Cada segundo sem um resposta aumentava sua aflição. Não comia, não bebia, sequer lembrava-se de tais futilidades. Não aguentava mais; algo tinha que ser feito. Qualquer medida drástica, àquela altura, seria, claro, compreensível. Nenhuma dor que ele já experimentara chegava aos pés do que ele estava sentido. E por tanto tempo...Já se convencera de que seu relógio não funcionava mais.
"Meu sofrimento se arrasta há semanas, como ele tem coragem de dizer que estou assim há apenas dois dias?"
Por fim, decidira-se. E, salvo um anjo, vindo dos céus, com um pacote contendo seu dom roubado, não havia nada, nem ninguém, que pudesse detê-lo. Qualquer consequência de seus atos não se compararia a magnitude da perda da habilidade mais sagrada do poeta.
Andou até a praça, com uma austeridade que escondia com incrível eficácia sua dor. Sabia, pela música que se propagava até sua casa, que era Domingo. Se era o primeiro Domingo, ou o décimo, desde a fatídica manhã, pouco importava. E, se era Domingo, então a feira de poesia deveria estar acontecendo, tradicionalmente. Sentou-se na última fileira. Ninguém o notou.
Enquanto ouvia outros poetas recitando seus poemas, racionalizou seu desprezo a arte alheia. "Se não posso mais escrever poemas, muito menos uns bons, é provável que também não possa mais reconhecê-los." Portanto, convenceu-se que o vencedor carregava em seu coração a chave que abriria as portas da magia da escrita para o poeta novamente. E então, seguiu-o até sua casa.
Esperou que dormisse. Não podia arriscar qualquer reação adversa, qualquer risco de erro. Afinal, a alternativa para um fracasso seria impensável. Insuportável.
A vila era extremamente pacata, de tal forma que todos dormiam de janelas abertas. Entrou com extrema cautela. A faca já em punho.
Dirigiu-se lentamente à cama de quem lhe causava tanta inveja. A necessidade de êxito transformou seu corte num movimento tão preciso, que o pobre vencedor da feira só perceberia que sua garganta estava cortada quando atravessasse os portões do Paraíso.
Precisava ser rápido - o corpo frio não lhe teria valor algum. Calculou que não havia tempo de voltar a sua casa, e achou que também pudesse ser perigoso. Então, com a mesma faca do crime, cortou o peito de sua vítima. Cortou até que pudesse distinguir um coração. Pôs sua mão nele; para sua alegria, ainda estava quente. E com um voracidade bestial, devorou-o por completo.
Voltou para sua casa, levando em sua boca ensanguentada a sua última esperança. Dormiu como uma criança.
Os raios de sol em seus olhos o acordaram. Ele levantou-se, e como no dia em que a loucura o dominou, sentou em sua cadeira, olhou para o céu, para si, para o papel, e pegou o seu lápis. E escreveu o mais belo poema que ele já escrevera. Seus olhos cintilavam felicidade.
Levou seu lindíssimo poema para a feira no domingo seguinte. Sabia que ganharia. E ganhou, naturalmente. Todos o aplaudiram. Por um momento, esqueceram o luto, e agradeceram a Deus por ter lhes dado um novo grande poeta.
Afinal, por Deus, o que de tão cruel ele poderia ter feito para merecer tão pesado castigo? Qual pecado abominával ele teria cometido que justificasse seu triste destino?
Acordara, sentara em sua cadeira, olhara para o céu, para si, para o papel, pegara o lápis. Contudo, não escrevera. Simplesmente não conseguia escrever um poema sequer. Apenas prosas. Lindas prosas, inclusive. Porém, lindas prosas para ele possuiam o mesmo valor de um saco de lixo perfumado; a real beleza das palavras se escondia única e exclusivamente no meio dos versos de uma poema, no meio de suas estrofes tão carinhosamente estruturadas e planejadas. E certamente não existia uma única pessoa que o conhecesse que ousasse contrariá-lo, tamanho era o amor e a raiva com os quais defendia sua bandeira.
Então, qual seria a razão disso ter acontecido justamente com ele?
Pensou, pensou, e pensou. Sua esperança era de que, se soubesse o motivo de tal maldição, talvez pudesse revertê-la.
Passaram-se horas. Dias. Cada segundo sem um resposta aumentava sua aflição. Não comia, não bebia, sequer lembrava-se de tais futilidades. Não aguentava mais; algo tinha que ser feito. Qualquer medida drástica, àquela altura, seria, claro, compreensível. Nenhuma dor que ele já experimentara chegava aos pés do que ele estava sentido. E por tanto tempo...Já se convencera de que seu relógio não funcionava mais.
"Meu sofrimento se arrasta há semanas, como ele tem coragem de dizer que estou assim há apenas dois dias?"
Por fim, decidira-se. E, salvo um anjo, vindo dos céus, com um pacote contendo seu dom roubado, não havia nada, nem ninguém, que pudesse detê-lo. Qualquer consequência de seus atos não se compararia a magnitude da perda da habilidade mais sagrada do poeta.
Andou até a praça, com uma austeridade que escondia com incrível eficácia sua dor. Sabia, pela música que se propagava até sua casa, que era Domingo. Se era o primeiro Domingo, ou o décimo, desde a fatídica manhã, pouco importava. E, se era Domingo, então a feira de poesia deveria estar acontecendo, tradicionalmente. Sentou-se na última fileira. Ninguém o notou.
Enquanto ouvia outros poetas recitando seus poemas, racionalizou seu desprezo a arte alheia. "Se não posso mais escrever poemas, muito menos uns bons, é provável que também não possa mais reconhecê-los." Portanto, convenceu-se que o vencedor carregava em seu coração a chave que abriria as portas da magia da escrita para o poeta novamente. E então, seguiu-o até sua casa.
Esperou que dormisse. Não podia arriscar qualquer reação adversa, qualquer risco de erro. Afinal, a alternativa para um fracasso seria impensável. Insuportável.
A vila era extremamente pacata, de tal forma que todos dormiam de janelas abertas. Entrou com extrema cautela. A faca já em punho.
Dirigiu-se lentamente à cama de quem lhe causava tanta inveja. A necessidade de êxito transformou seu corte num movimento tão preciso, que o pobre vencedor da feira só perceberia que sua garganta estava cortada quando atravessasse os portões do Paraíso.
Precisava ser rápido - o corpo frio não lhe teria valor algum. Calculou que não havia tempo de voltar a sua casa, e achou que também pudesse ser perigoso. Então, com a mesma faca do crime, cortou o peito de sua vítima. Cortou até que pudesse distinguir um coração. Pôs sua mão nele; para sua alegria, ainda estava quente. E com um voracidade bestial, devorou-o por completo.
Voltou para sua casa, levando em sua boca ensanguentada a sua última esperança. Dormiu como uma criança.
Os raios de sol em seus olhos o acordaram. Ele levantou-se, e como no dia em que a loucura o dominou, sentou em sua cadeira, olhou para o céu, para si, para o papel, e pegou o seu lápis. E escreveu o mais belo poema que ele já escrevera. Seus olhos cintilavam felicidade.
Levou seu lindíssimo poema para a feira no domingo seguinte. Sabia que ganharia. E ganhou, naturalmente. Todos o aplaudiram. Por um momento, esqueceram o luto, e agradeceram a Deus por ter lhes dado um novo grande poeta.
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