segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Poesia

Ninguém podia medir o tamanho do desespero do poeta. Logo, ninguém pode julgá-lo.

Afinal, por Deus, o que de tão cruel ele poderia ter feito para merecer tão pesado castigo? Qual pecado abominával ele teria cometido que justificasse seu triste destino?


Acordara, sentara em sua cadeira, olhara para o céu, para si, para o papel, pegara o lápis. Contudo, não escrevera. Simplesmente não conseguia escrever um poema sequer. Apenas prosas. Lindas prosas, inclusive. Porém, lindas prosas para ele possuiam o mesmo valor de um saco de lixo perfumado; a real beleza das palavras se escondia única e exclusivamente no meio dos versos de uma poema, no meio de suas estrofes tão carinhosamente estruturadas e planejadas. E certamente não existia uma única pessoa que o conhecesse que ousasse contrariá-lo, tamanho era o amor e a raiva com os quais defendia sua bandeira.


Então, qual seria a razão disso ter acontecido justamente com ele?


Pensou, pensou, e pensou. Sua esperança era de que, se soubesse o motivo de tal maldição, talvez pudesse revertê-la.

Passaram-se horas. Dias. Cada segundo sem um resposta aumentava sua aflição. Não comia, não bebia, sequer lembrava-se de tais futilidades. Não aguentava mais; algo tinha que ser feito. Qualquer medida drástica, àquela altura, seria, claro, compreensível. Nenhuma dor que ele já experimentara chegava aos pés do que ele estava sentido. E por tanto tempo...Já se convencera de que seu relógio não funcionava mais.

"Meu sofrimento se arrasta há semanas, como ele tem coragem de dizer que estou assim há apenas dois dias?"

Por fim, decidira-se. E, salvo um anjo, vindo dos céus, com um pacote contendo seu dom roubado, não havia nada, nem ninguém, que pudesse detê-lo. Qualquer consequência de seus atos não se compararia a magnitude da perda da habilidade mais sagrada do poeta.

Andou até a praça, com uma austeridade que escondia com incrível eficácia sua dor. Sabia, pela música que se propagava até sua casa, que era Domingo. Se era o primeiro Domingo, ou o décimo, desde a fatídica manhã, pouco importava. E, se era Domingo, então a feira de poesia deveria estar acontecendo, tradicionalmente. Sentou-se na última fileira. Ninguém o notou.

Enquanto ouvia outros poetas recitando seus poemas, racionalizou seu desprezo a arte alheia. "Se não posso mais escrever poemas, muito menos uns bons, é provável que também não possa mais reconhecê-los." Portanto, convenceu-se que o vencedor carregava em seu coração a chave que abriria as portas da magia da escrita para o poeta novamente. E então, seguiu-o até sua casa.

Esperou que dormisse. Não podia arriscar qualquer reação adversa, qualquer risco de erro. Afinal, a alternativa para um fracasso seria impensável. Insuportável.

A vila era extremamente pacata, de tal forma que todos dormiam de janelas abertas. Entrou com extrema cautela. A faca já em punho.

Dirigiu-se lentamente à cama de quem lhe causava tanta inveja. A necessidade de êxito transformou seu corte num movimento tão preciso, que o pobre vencedor da feira só perceberia que sua garganta estava cortada quando atravessasse os portões do Paraíso.

Precisava ser rápido - o corpo frio não lhe teria valor algum. Calculou que não havia tempo de voltar a sua casa, e achou que também pudesse ser perigoso. Então, com a mesma faca do crime, cortou o peito de sua vítima. Cortou até que pudesse distinguir um coração. Pôs sua mão nele; para sua alegria, ainda estava quente. E com um voracidade bestial, devorou-o por completo.

Voltou para sua casa, levando em sua boca ensanguentada a sua última esperança. Dormiu como uma criança.

Os raios de sol em seus olhos o acordaram. Ele levantou-se, e como no dia em que a loucura o dominou, sentou em sua cadeira, olhou para o céu, para si, para o papel, e pegou o seu lápis. E escreveu o mais belo poema que ele já escrevera. Seus olhos cintilavam felicidade.

Levou seu lindíssimo poema para a feira no domingo seguinte. Sabia que ganharia. E ganhou, naturalmente. Todos o aplaudiram. Por um momento, esqueceram o luto, e agradeceram a Deus por ter lhes dado um novo grande poeta.

8 comentários:

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  4. Na moral, fico mt louca, e quando digo que ficou louca quer dize que gostei!!! \o/
    ps: eu quem lhe deu inspiração

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  5. É perturbador, mas de um jeito bom (sim, isso é possível :D). Muitíssimo bem escrita, e a ideia é, wow.
    Você consegue escrever algo mórbido e perturbador e mesmo assim me fazer gostar demais do texto, blé

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  6. Vou comer o coração de alguém da sala que saiba Química. Boa sugestão.

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